Funciona assim - eu viro brasa. Se eu pudesse descrever, diria que tenho uma febre, algo dentro de mim se aquece, borbulha, queima e se faz fumaça, exalada pelas chamas vermelhas que me envolvem. E eu não consigo apagar esse incêndio, não consigo me calar, não dá para ficar simplesmente parada. As coisas simples se tornam grandiosas, um ponto vira um asterisco e a cabeça entra em parafuso. Eu olho para a parede do meu quarto, branca e fria, na tentativa vã de controlar essa fome que me consome e me faz devorar tudo o que vejo pela frente - alimento e matéria - mas a parede, por sua vez, se transforma em fogueira, e meu quarto passa a ser o lugar mais quente da casa. E nem a chuva é capaz de controlar as labaredas que seguem queimando na minha mente.
A permanência desta insanidade se comprova pela necessidade que tenho de não me adaptar. Ora, o conceito de normalidade consiste em enquadrar-se em padrões e normas pré-estabelecidos - sabe-se lá por quem - e que se perpetuam pelos tempos. Sendo assim, não é muito difícil concluir que ser normal nunca foi uma ambição da minha parte. E que eu já esgotei o tema em vários textos, inclusive neste querido blog.
O dicionário Houaiss descreve o adjetivo "Normal", como segue:
normal |
Datação 1836 cf. SC
Acepções
■ adjetivo de dois gêneros 1 conforme a norma, a regra; regular
2 que é usual, comum; natural
3 sem defeitos ou problemas físicos ou mentais
Ex.: uma criança n.
4 cujo comportamento é considerado aceitável e comum (diz-se de pessoa)
Acepções
■ adjetivo de dois gêneros 1 conforme a norma, a regra; regular
2 que é usual, comum; natural
3 sem defeitos ou problemas físicos ou mentais
Ex.: uma criança n.
4 cujo comportamento é considerado aceitável e comum (diz-se de pessoa)
Em contrapartida, "Louco" possui a seguinte definição, no mesmo dicionário:
louco |
Acepções
■ adjetivo e substantivo masculino 1 que ou aquele cujo comportamento ou raciocínio denota alterações patológicas das faculdades mentais 2 Derivação: por extensão de sentido.
que ou aquele cujos atos e palavras parecem extravagantes, desarrazoados
■ adjetivo 3 de aparência estranha, anormal, fora do habitual; tresloucado
4 fora de si, transtornado, em razão de algo que é excessivo, custoso, que ultrapassa o limite do suportável e que leva ao estado de loucura 5 absurdo, incompreensível, irracional 6 desprovido de bom senso, que vai contra o que seria esperado, razoável ou prudente 7 que não segue uma direção previsível; descontrolado 8 cuja sensação, sentimento, emoção etc. atingiu o paroxismo, o seu limite máximo 9 que ama, que gosta demasiadamente de (pessoa ou animal) ou que tem forte predileção por alguma coisa 10 falto de seriedade, de siso; que se mostra demasiadamente irreverente, atrevido, brincalhão 11 fora do comum; extraordinário, colossal
Este conceito de normalidade me parece muito tedioso.
Quantos ilustres pensadores não foram considerados loucos, perigosos, delirantes, pura e simplesmente por não fazerem parte do molde pré-concebido por quem não aceita as diversidades e multiplicidades do ser humano?
Vivemos, há muitos séculos, numa realidade em que ser normal, ou seja, ter um comportamento aceitável e comum, é ser previsível, sem originalidade, é como ser "castrado" dos sentimentos irracionais, inconscientes, inexplicáveis, que ardem, queimam, explodem dentro da gente. E chega uma hora que você pensa: "eu me recuso a ser normal". E ponto.
Não sei o que me acomete em tempos como estes, talvez seja esta insanidade que eu teimo em sufocar e reprimir, essa loucura sadia, o desejo irrepreensível de não me enquadrar numa normalidade que é morna, insossa e sem vida. E eu pretendo explorar essa linda anormalidade que se alimenta de tudo o que me rodeia, transformando a vida que conhecemmos, o nascer-viver-trabalhar-casar-terfilhos-seaposentar-morrer, tão sem sal e sem gosto, em um banquete à luz de velas, ao som da mais bela das orquestras, regado a muito vinho e acompanhado por sobremesas finas e inusitadas. São as singelas imperfeições e anormalidades que transformam a existência em pura arte e beleza.
Um salve à inexatidão da vida, aos impulsos, ao inconsciente, à loucura que nos faz ousar, inovar, criar, e aos imprecisos passos que damos rumo à eternidade.

