28.3.12

Insanidade permanente

Os recentes acontecimentos da minha vida tem me conduzido a uma leve e deliciosa insanidade que, ao que me parece, não é nada temporária. As traduções, os livros, a busca incessante por algo que seja original, de fato (e este é um tema sobre o qual ainda escreverei, em breve), as constantes visitas a São Paulo - hábito que me fazia muita falta - e as inconstâncias da minha rotina que não se caracteriza nem um pouco pela mesmice, tudo isto tem colaborado para a minha criatividade, inspiração, felicidade, e tantos outros termos que podem ser usados como eufemismo para loucura.

Funciona assim - eu viro brasa. Se eu pudesse descrever, diria que tenho uma febre, algo dentro de mim se aquece, borbulha, queima e se faz fumaça, exalada pelas chamas vermelhas que me envolvem. E eu não consigo apagar esse incêndio, não consigo me calar, não dá para ficar simplesmente parada. As coisas simples se tornam grandiosas, um ponto vira um asterisco e a cabeça entra em parafuso. Eu olho para a parede do meu quarto, branca e fria, na tentativa vã de controlar essa fome que me consome e me faz devorar tudo o que vejo pela frente - alimento e matéria - mas a parede, por sua vez, se transforma em fogueira, e meu quarto passa a ser o lugar mais quente da casa. E nem a chuva é capaz de controlar as labaredas que seguem queimando na minha mente.

A permanência desta insanidade se comprova pela necessidade que tenho de não me adaptar. Ora, o conceito de normalidade consiste em enquadrar-se em padrões e normas pré-estabelecidos - sabe-se lá por quem - e que se perpetuam pelos tempos. Sendo assim, não é muito difícil concluir que ser normal nunca foi uma ambição da minha parte. E que eu já esgotei o tema em vários textos, inclusive neste querido blog.

O dicionário Houaiss descreve o adjetivo "Normal", como segue:

normal

Datação 1836 cf. SC

Acepções

adjetivo de dois gêneros 1    conforme a norma, a regra; regular
2    que é usual, comum; natural
3    sem defeitos ou problemas físicos ou mentais
Ex.: uma criança n.
4    cujo comportamento é considerado aceitável e comum (diz-se de pessoa) 

Em contrapartida, "Louco" possui a seguinte definição, no mesmo dicionário:

louco
Datação sXIII cf. FichIVPM

Acepções

adjetivo e substantivo masculino 1    que ou aquele cujo comportamento ou raciocínio denota alterações patológicas das faculdades mentais 2    Derivação: por extensão de sentido.
     que ou aquele cujos atos e palavras parecem extravagantes, desarrazoados
adjetivo 3    de aparência estranha, anormal, fora do habitual; tresloucado
 
4    fora de si, transtornado, em razão de algo que é excessivo, custoso, que ultrapassa o limite do suportável e que leva ao estado de loucura 5    absurdo, incompreensível, irracional 6    desprovido de bom senso, que vai contra o que seria esperado, razoável ou prudente 7    que não segue uma direção previsível; descontrolado 8    cuja sensação, sentimento, emoção etc. atingiu o paroxismo, o seu limite máximo 9    que ama, que gosta demasiadamente de (pessoa ou animal) ou que tem forte predileção por alguma coisa 10    falto de seriedade, de siso; que se mostra demasiadamente irreverente, atrevido, brincalhão 11    fora do comum; extraordinário, colossal

Este conceito de normalidade me parece muito tedioso.
Quantos ilustres pensadores não foram considerados loucos, perigosos, delirantes, pura e simplesmente por não fazerem parte do molde pré-concebido por quem não aceita as diversidades e multiplicidades do ser humano? 
Vivemos, há muitos séculos, numa realidade em que ser normal, ou seja, ter um comportamento aceitável e comum, é ser previsível, sem originalidade,  é como ser "castrado" dos sentimentos irracionais, inconscientes, inexplicáveis, que ardem, queimam, explodem dentro da gente. E chega uma hora que você pensa: "eu me recuso a ser normal". E ponto.

Não sei o que me acomete em tempos como estes, talvez seja esta insanidade que eu teimo em sufocar e reprimir, essa loucura sadia, o desejo irrepreensível de não me enquadrar numa normalidade que é morna, insossa e sem vida. E eu pretendo explorar essa linda anormalidade que se alimenta de tudo o que me rodeia, transformando a vida que conhecemmos, o nascer-viver-trabalhar-casar-terfilhos-seaposentar-morrer, tão sem sal e sem gosto, em um banquete à luz de velas, ao som da mais bela das orquestras, regado a muito vinho e acompanhado por sobremesas finas e inusitadas. São as singelas imperfeições e anormalidades que transformam a existência em pura arte e beleza.

Um salve à inexatidão da vida, aos impulsos, ao inconsciente, à loucura que nos faz ousar, inovar, criar, e aos imprecisos passos que damos rumo à eternidade.

20.3.12

Motivos

Porque você é o único que me faz sorrir, mesmo quando eu estou triste, brava, sem vontade de viver.
Pelas nossas brincadeiras bobas, pelos momentos caseiros, os almoços, os cafés, os jantares, as cervejinhas, os devaneios na varanda, as poesias compartilhadas, os planos, os sonhos, pelo modo como você me olha, me faz sentir a única mulher do mundo, porque você faz um bem enorme para mim, em todos os aspectos. Com você, eu cresço, a cada dia, eu me abro sem medos, eu deixo as barreiras serem demolidas sem receio de ficar sem defesas. De alguma forma, mesmo cheia de traumas e medos, eu sei que você é diferente... Porque você conquistou o seu espaço na minha alma e isso é algo que jamais será perdido. Porque você tem todas as características do homem perfeito, e eu amo tudo em você, mesmo os seus pequenos defeitos.

Porque eu quero te fazer feliz, te proteger das coisas ruins, mesmo quando a coisa ruim sou eu. Eu quero ser o melhor que há em mim, para que o amor seja sinônimo de felicidade, para sempre.

Por isso e por você ser único, lindo, complexo, difícil, diferente, com tanta alma que não caberia em uma só existência... Por esses e tantos outros motivos que não podem ser delimitados por palavras, eu te amo.

16.3.12

Leite Derramado

Estou lendo esse livro, que me parece ser um dos mais bem escritos do essencial Chico Buarque. O que dizer do Chico, não é mesmo? O cara é um primor.
Quem quiser ter um gostinho, segue abaixo o primeiro capítulo.
Mas olha, vale a pena comprar o livro e ler tudo. Mesmo.



Quando eu sair daqui, vamos nos casar na fazenda da minha feliz infância, lá na raiz da serra. Você vai usar o vestido e o véu da minha mãe, e não falo assim por estar sentimental, não é por causa da morfina. Você vai dispor dos rendados, dos cristais, da baixela, das jóias e do nome da minha família. Vai dar ordens aos criados, vai montar no cavalo da minha antiga mulher. E se na fazenda ainda não houver luz elétrica, providenciarei um gerador para você ver televisão. Vai ter também ar condicionado em todos os aposentos da sede, porque na baixada hoje em dia faz muito calor. Não sei se foi sempre assim, se meus antepassados suavam debaixo de tanta roupa. Minha mulher, sim, suava bastante, mas ela já era de uma nova geração e não tinha a austeridade da minha mãe. Minha mulher gostava de sol, voltava sempre afogueada das tardes no areal de Copacabana. Mas nosso chalé em Copacabana já veio abaixo, e de qualquer forma eu não moraria com você na casa de outro casamento, moraremos na fazenda da raiz da serra. Vamos nos casar na capela que foi consagrada pelo cardeal arcebispo do Rio de Janeiro em mil oitocentos e lá vai fumaça. Na fazenda você tratará de mim e de mais ninguém, de maneira que ficarei completamente bom. E plantaremos árvores, e escreveremos livros, e se Deus quiser ainda criaremos filhos nas terras de meu avô. Mas se você não gostar da raiz da serra por causa das pererecas e dos insetos, ou da lonjura ou de outra coisa, poderíamos morar em Botafogo, no casarão construído por meu pai. Ali há quartos enormes, banheiros de mármore com bidês, vários salões com espelhos venezianos, estátuas, pé-direito monumental e telhas de ardósia importadas da França. Há palmeiras, abacateiros e amendoeiras no jardim, que virou estacionamento depois que a embaixada da Dinamarca mudou para Brasília. Os dinamarqueses me compraram o casarão a preço de banana, por causa das trapalhadas do meu genro. Mas se amanhã eu vender a fazenda, que tem duzentos alqueires de lavoura e pastos, cortados por um ribeirão de água potável, talvez possa reaver o casarão de Botafogo e restaurar os móveis de mogno, mandar afinar o piano Pleyel da minha mãe. Terei bricolagens para me ocupar anos a fio, e caso você deseje prosseguir na profissão, irá para o trabalho a pé, visto que o bairro é farto em hospitais e consultórios. Aliás, bem em cima do nosso próprio terreno levantaram um centro médico de dezoito andares, e com isso acabo de me lembrar que o casarão não existe mais. E mesmo a fazenda na raiz da serra, acho que desapropriaram em 1947 para passar a rodovia. Estou pensando alto para que você me escute. E falo devagar, como quem escreve, para que você me transcreva sem precisar ser taquígrafa, você está aí? Acabou a novela, o jornal, o filme, não sei por que deixam a televisão ligada, fora do ar. Deve ser para que esse chuvisco me encubra a voz, e eu não moleste os outros pacientes com meu palavrório. Mas aqui só há homens adultos, quase todos meio surdos, se houvesse senhoras de idade no recinto eu seria mais discreto. Por exemplo, jamais falaria das p_tinhas que se acocoravam aos faniquitos, quando meu pai arremessava moedas de cinco francos na sua suíte do Ritz. Meu pai ali muito compenetrado, e as cocotes nuinhas em postura de sapo, empenhadas em pinçar as moedas no tapete, sem se valer dos dedos. A campeã ele mandava descer comigo ao meu quarto, e de volta ao Brasil confirmava à minha mãe que eu vinha me aperfeiçoando no idioma. Lá em casa como em todas as boas casas, na presença de empregados os assuntos de família se tratavam em francês, se bem que, para mamãe, até me pedir o saleiro era assunto de família. E além do mais ela falava por metáforas, porque naquele tempo qualquer enfermeirinha tinha rudimentos de francês. Mas hoje a moça não está para conversas, voltou amuada, vai me aplicar a injeção. O sonífero não tem mais efeito imediato, e já sei que o caminho do sono é como um corredor cheio de pensamentos. Ouço ruídos de gente, de vísceras, um sujeito entubado emite sons rascantes, talvez queira me dizer alguma coisa. O médico plantonista vai entrar apressado, tomar meu pulso, talvez me diga alguma coisa. Um padre chegará para a visita aos enfermos, falará baixinho palavras em latim, mas não deve ser comigo. Sirene na rua, telefone, passos, há sempre uma expectativa que me impede de cair no sono. É a mão que me sustém pelos raros cabelos. Até eu topar na porta de um pensamento oco, que me tragará para as profundezas, onde costumo sonhar em preto-e-branco.

14.3.12

Dia Nacional da Poesia

Neste dia nacional da Poesia, dedico este post a todos os poetas que transformam o simples em sublime, que fazem das nossas vidas uma canção, que contam os dias em palavras e versos de beleza sem fim. Ler poesia é mais do que simplesmente captar com os nervos ópticos as palavras escritas no papel ou na tela - é uma experiência, é algo que nos eleva, transforma, desfaz os nós, reaviva os sentidos. É como ovir uma canção em silêncio, é escutar dentro de nós a voz da alma de quem escreve. Eu costumo gostar de poesias sem muitas rimas, sem muitas métricas, mais livres e sem amarras - como as próprias palavras e almas de qem as escreve.
E hoje, a todos os poetas que me ajudaram a compreender melhor este mundo, a mim mesma, e que me trouxeram uma noção de solidariedade - de que, afinal, não estou só nesta coisa de sentir, sofrer, sangrar, amar - deixo aqui o meu muito obrigada! 
Que a poesia esteja sempre presente em nossos dias, tornando-os mais coloridos e ensolarados, ainda que o céu esteja cinza.


Abaixo, um dos meus poemas preferidos, do poeta mineirinho gauche que tem um lugar especial no meu coração, Carlos Drummond de Andrade. Este "Poema de Sete Faces" faz parte do livro "Alguma Poesia", e eu retirei deste site.
















Poema de Sete Faces
 
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.




12.3.12

Fluxo indomável

Minhas mãos batem pesadas nestas teclas macias, que cantam melodias magníficas, singulares, ao serem tocadas com carinho, firmeza, avidez, delicadeza. Os dedos, já doloridos após um longo dia de trabalho, não se cansam, não conseguem parar, eles correm, ferozes, e as páginas e páginas do novo documento se preenchem rapidamente, sem sentido, assim como os dedos que as fazem nascer.

Minha mente corre como um guepardo, os pensamentos tentam se esconder para não serem roubados pelas mãos, famintas por ideias, mas é tarde demais. Elas já estão todas deitadas em caracteres repletos de sentido, ainda que sem direção. Eu desisti de tentar escrever à caneta ou lápis, parece que as palavras demoram a se formar e, enquanto sequer terminei o primeiro parágrafo, as próximas cinco páginas já estão prontinhas, na ponta da língua, mas a caneta parece travar, e eu perco o fio da meada. De forma que adotei a digitação como quase o único meio para escrever, de verdade. E as teclas pulsam, respiram, cantam, dançam...  Imagino a sinfonia que eu seria capaz de compor se escrevesse ainda naquelas máquinas de escrever antigas, pesadas, fazendo aquele tlac tlac tlac típico de filmes de guerra ou romances em preto e branco, ou até mesmo filmes em que os personagens trabalham na redação de um jornal, ou são escritores, e o tlac tlac tlac, plim! como a perfeita trilha sonora para tanta nostalgia.

Meu pensamento não consegue parar.
Mas eu paro por aqui, os dedos precisam de descanso e aqueles muitos caracteres do .doc foram os únicos que eu consegui sequestrar nos cantinhos da minha mente. Os outros, escondidos, estão esperando o momento certo, e eu não me inquieto, eu estou certa de que eles virão ao meu encontro, por mais que a minha consciência não permite e os tente aprisionar.
Os meus pensamentos são compostos por caracteres e palavras indomáveis...

6.3.12

E se...?

(Nota: a ideia deste  post surgiu enquanto assistia a um filme que falava sobre destino, entre outras coisas. E eis que ao navegar pelo blog do meu namorado, vejo que ele postou exatamente o texto que eu ia postar aqui. Nada é por acaso...)

Você já parou para pensar no que poderia ter acontecido se tivesse tomado decisões diferentes em sua vida? Se, em vez de fazer faculdade de Administração você tivesse seguido sua carreira como violinista? E se não tivesse casado com o J. Pinto Fernandes ou com a Amélia? Imaginem se o capitão do Titanic tivesse desviado do Iceberg! Garanto que faria bastante diferença para o James Cameron, Kate Winslet, Leo DiCaprio e toda aquela galera do filme. E se Kurt Cobain não tivesse cometido suicídio, não teríamos uma banda sensacional - os Foo Fighters. Se John Lennon não tivesse saído dos Beatles para seguir a sua vida e seu amor, talvez não tivesse sido assassinado. E se o meu pai, em vez de casar com a minha mãe, tivesse se tornado monge beneditino? São muitas, infinitas possibilidades. Imagens e hipóteses dignas de um filme como "De Volta para o Futuro".

Muitas vezes me peguei questionando os " e se..." da vida, especialmente desde que me vi novamente solteira, em uma cidade completamente nova, sem amigos, e toda a ladainha que nem eu aguento mais. Se eu tivesse feito uma faculdade diferente, terminado meu namoro antes, ou depois (derrmilivre!) ficado em São Palo, ficado em Santos, mudado para cá antes, mudado para cá depois.... Como será que as coisas estariam acontecendo na minha vida? São tantas as variáveis que é melhor nem começar a pensar para não entrar em completo estado de loucura.


Não dá para contar quantos filmes, livros, contos e outros textos existem sobre este tema, acho que essa coisa de analisar o passado e o que poderia ter sido, e como poderíamos ter feito tudo melhor, ou pior - diferente, seja lá como fosse - é algo intrínseco ao ser humano. A gente não consegue desapegar das decisões, por mais acertadas ou erradas que sejam, e se perde nos questionamentos mais absurdos e semelhantes a labirintos, sem tesouros no final. Acho que essa deve ser a lição maior - aprender a conviver com o que se tem, largando mão das variáveis que ficaram esquecidas nas encruzilhadas do passado.

Hoje, pensando bem, acho que eu não mudaria nada em minha vida. Eu tenho tudo o que preciso, e, mais importante, quase tudo o que sempre sonhei. Eu não seria mais feliz ou "melhor" se tivesse tomado decisões diferentes - eu simplesmente estaria vivendo num cenário diferente, mas continuaria sendo eu. E eu estou perfeitamente bem e exatamente onde deveria estar.
E um dos motivos pelos quais cheguei a esta conclusão foi ter lido este texto "Versões de Mim", do brilhante, simplérrimo e muito realista Luis Fernando Veríssimo.

Boa leitura!

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Versões de mim – (Luiz Fernando Veríssimo)
Vivemos cercados pelas nossas alternativas, pelo que podíamos ter sido.
Ah, se apenas tivéssemos acertado aquele número (unzinho e eu ganhava a sena acumulada), topado aquele emprego, completado aquele curso, chegado antes, chegado depois, dito sim, dito não, ido para Londrina, casado com a Doralice, feito aquele teste… Agora mesmo neste bar imaginário em que estou bebendo para esquecer o que não fiz – aliás, o nome do bar é Imaginário – sentou um cara do meu lado direito e se apresentou:
- Eu sou você, se tivesse feito aquele teste no Botafogo.
E ele tem mesmo a minha idade e a minha cara. E o mesmo desconsolo.
- Por que? Sua vida não foi melhor do que a minha?
- Durante um certo tempo, foi. Cheguei a titular. Cheguei a seleção. Fiz um grande contrato. Levava uma grande vida. Até que um dia..
- Eu sei, eu sei… disse alguém sentado ao lado dele.
Olhamos para o intrometido… Tinha a nossa idade e a nossa cara e não parecia mais feliz do que nós. Ele continuou:
- Você hesitou entre sair e não sair do gol. Não saiu, levou o único gol do jogo, caiu em desgraça, largou o futebol e foi ser um medíocre propagandista.
- Como é que você sabe?
- Eu sou você, se tivesse saído do gol. Não só peguei a bola como me mandei para o ataque com tanta perfeição que fizemos o gol da vitória. Fui considerado o herói do jogo. No jogo seguinte, hesitei entre me atirar nos pés de um atacante e não me atirar. Como era um herói, me tirei… Levei um chute na cabeça. Não pude ser mais nada. Nem propagandista. Ganho uma miséria do INSS e só faço isto: bebo e me queixo da vida. Se não tivesse ido nos pés do atacante…
Ele chutaria para fora. Quem falou foi o outro sósia nosso, ao lado dele, que em seguida se apresentou.
- Eu sou você se não tivesse ido naquela bola. Não faria diferença. Não seria gol. Minha carreira continuou. Fiquei cada vez mais famoso, e agora com fama de sortudo também. Fui vendido para o futebol europeu, por uma fábula. O primeiro goleiro brasileiro a ir jogar na Europa. Embarquei com festa no Rio…
- E o que aconteceu? perguntamos os três em uníssono.
- Lembra aquele avião da VARIG que caiu na chegada em Paris?
- Você…
- Morri com 28 anos.
- Bem que tínhamos notado sua palidez.
- Pensando bem, foi melhor não fazer aquele teste no Botafogo…
- E ter levado o chute na cabeça…
- Foi melhor, continuou, ter ido fazer o concurso para o serviço público naquele dia. Ah, se eu tivesse passado…
- Você deve estar brincando.
Disse alguém sentado a minha esquerda. Tinha a minha cara, mas parecia mais velho e desanimado.
- Quem é você?
- Eu sou você, se tivesse entrado para o serviço público.
Vi que todas as banquetas do bar à esquerda dele estavam ocupadas por versões de mim no serviço público, uma mais desiludida do que a outra. As conseqüências de anos de decisões erradas, alianças fracassadas, pequenas traições, promoções negadas e frustração. Olhei em volta. Eu lotava o bar. Todas as mesas estavam ocupadas por minhas alternativas e nenhuma parecia estar contente. Comentei com o barman que, no fim, quem estava com o melhor aspecto, ali, era eu mesmo. O barman fez que sim com a cabeça, tristemente. Só então notei que ele também tinha a minha cara, só com mais rugas.
- Quem é você? perguntei.
- Eu sou você, se tivesse casado com a Doralice.
- E..?
Ele não respondeu. Só fez um sinal, com o dedão virado para baixo…

1.3.12

Recordações

O céu hoje está pegando fogo. Ontem me presenteou com tantas imagens lindas, como a que aparece abaixo, e um por do sol tão espetacular, que nem todas as fotos que tirei puderam expressar sequer um milésimo da riqueza de cores e sentimentos que me despertou.

Eu me lembro de tardes como esta, deste azul que me desperta uma vontade imensa de mergulhar, como se fosse possível nadar nas águas do céu. Tardes que prevaleciam quando eu era criança, em que o sol transforma os telhados dos prédios em diamantes líquidos, cintilando sob os raios dourados. Quando adolescente, eu costumava ficar horas olhando através da janela do meu apartamento, do terceiro andar de um prédio baixo e antigo, admirando um horizonte que terminava na próxima esquina. Um alto prédio barrava a minha visão e era quase impossível enxergar as singelas nuvens que esboçavam linhas bem finas no azul. Eu contornava esta limitação saindo para caminhar pelas ruas tranquilas do meu bairro, mas, como sempre, o horizonte não era tão amplo. E então, eu chegava na praia. Aquele imenso calçadão da cidade de Santos, um horizonte quase interminável, delimitado por montanhas, navios e o sol que mergulhava todas as tardes no mar que, assim como os prédios, também parecia diamante liquefeito. O sol, que se deliciava com algo que eu jamais poderia, tampouco poderei, fazer - ele nadava no azul todos os dias.

Eu me lembro de permanecer na areia morna, à sombra de uma palmeira ou qualquer outra árvore, com meu walkman no ouvido, com um livro e um caderno, por horas. À minha frente, o vasto oceano, e a cidade lá atrás pegando fogo. Eu virava as costas e via o asfalto se transformar em poças d'água, como nas corridas de fórmula 1, com os carros rumando para o que se assemelha a um lodo fantasmagórico, efeito do calor e da luz refletidos na pista mais do que quente.

Nestas tardes em que o sol incendeia o céu, meu coração pega fogo com as recordações de uma época tão inocente, em que eu usava tranças no cabelo, bebia água de coco todos os dias, suco de laranja, caminhava com os pés na água, levava o meu violão para tomar banhos de sol musicais, tardes ternas e eternas, em que eu quase podia tocar o outro lado do mundo com as minhas mãos estendidas em direção à montanha. Eu era plena com a simplicidade das areias mornas e me contentava em fincar os pés no chão e ver o mundo assim. Do chão. Eu quase não voava, mas também não me prendia a detalhes sem importância. Tempo em que escrever era criar mundos, mergulhar em mares fantásticos, imaginar um romance com um transeunte de aparência atrativa, imaginar que era a mulher de biquini pequeno, com as curvas perfeitas, imaginar-me sereia, descobrindo tesouros perdidos e voltar no tempo de meus ancestrais.

Estas tardes me visitam sempre que o sol derrete o horizonte, transformando as memórias em diamantes lapidados, preciosos e líquidos, como a própria essência da vida.