1.3.12

Recordações

O céu hoje está pegando fogo. Ontem me presenteou com tantas imagens lindas, como a que aparece abaixo, e um por do sol tão espetacular, que nem todas as fotos que tirei puderam expressar sequer um milésimo da riqueza de cores e sentimentos que me despertou.

Eu me lembro de tardes como esta, deste azul que me desperta uma vontade imensa de mergulhar, como se fosse possível nadar nas águas do céu. Tardes que prevaleciam quando eu era criança, em que o sol transforma os telhados dos prédios em diamantes líquidos, cintilando sob os raios dourados. Quando adolescente, eu costumava ficar horas olhando através da janela do meu apartamento, do terceiro andar de um prédio baixo e antigo, admirando um horizonte que terminava na próxima esquina. Um alto prédio barrava a minha visão e era quase impossível enxergar as singelas nuvens que esboçavam linhas bem finas no azul. Eu contornava esta limitação saindo para caminhar pelas ruas tranquilas do meu bairro, mas, como sempre, o horizonte não era tão amplo. E então, eu chegava na praia. Aquele imenso calçadão da cidade de Santos, um horizonte quase interminável, delimitado por montanhas, navios e o sol que mergulhava todas as tardes no mar que, assim como os prédios, também parecia diamante liquefeito. O sol, que se deliciava com algo que eu jamais poderia, tampouco poderei, fazer - ele nadava no azul todos os dias.

Eu me lembro de permanecer na areia morna, à sombra de uma palmeira ou qualquer outra árvore, com meu walkman no ouvido, com um livro e um caderno, por horas. À minha frente, o vasto oceano, e a cidade lá atrás pegando fogo. Eu virava as costas e via o asfalto se transformar em poças d'água, como nas corridas de fórmula 1, com os carros rumando para o que se assemelha a um lodo fantasmagórico, efeito do calor e da luz refletidos na pista mais do que quente.

Nestas tardes em que o sol incendeia o céu, meu coração pega fogo com as recordações de uma época tão inocente, em que eu usava tranças no cabelo, bebia água de coco todos os dias, suco de laranja, caminhava com os pés na água, levava o meu violão para tomar banhos de sol musicais, tardes ternas e eternas, em que eu quase podia tocar o outro lado do mundo com as minhas mãos estendidas em direção à montanha. Eu era plena com a simplicidade das areias mornas e me contentava em fincar os pés no chão e ver o mundo assim. Do chão. Eu quase não voava, mas também não me prendia a detalhes sem importância. Tempo em que escrever era criar mundos, mergulhar em mares fantásticos, imaginar um romance com um transeunte de aparência atrativa, imaginar que era a mulher de biquini pequeno, com as curvas perfeitas, imaginar-me sereia, descobrindo tesouros perdidos e voltar no tempo de meus ancestrais.

Estas tardes me visitam sempre que o sol derrete o horizonte, transformando as memórias em diamantes lapidados, preciosos e líquidos, como a própria essência da vida.

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