23.1.12

Presente simples

O amar parece não ter fim ao passear, vez em quando, de mãos dadas com a razão e outros sentimentos por vezes até mesmo desvalorizados, como amizade, cumplicidade, intimidade, doação, bondade, generosidade (a lista é grande). Aquelas três palavras deixam de ser banais, recebem um revestimento áureo e escorrem como veludo pelas línguas dos que amam, de fato. São eternas, e, ainda assim, conjugadas no tempo presente. Mais ainda - são faladas pelo corpo, que se desdobra da forma como puder para poder dizer que ama, sem pronunciar uma só letra. Que realiza os gestos mais singelos e as façanhas dignas das mais longas e épicas narrativas clássicas com o simples propósito de mostrar para o mundo a verdadeira face do seu sentimento. Mas tenho cá para mim que os feitos mais exuberantes não são capazes de superar um detalhe que poderia ser ignorado pelos mais desavisados ou insensíveis. Desenhar uma flor num pedaço de papel vale mais do que um vaso de orquídeas raras, e jantar macarrão à luz de velas, servido pela pessoa amada, é muito mais romântico do que ir a um restaurante da moda e comer lagosta ou caviar. Dentre todos os verbos, Amar é um dos mais simples. Resta a nós sabermos conjugá-lo.

1 leitores:

Andanhos disse...

Belo texto, Anana.
Amar é o verbo mais simples, mas também o mais complexo e complicado.
É um verbo transitivo direto, mas que também pode ser intransitivo (como indicou Mário de Andrade), transitivo indireto (com suas preposições e posposições) e, por que não?, de ligação. Por amar ligam-se vidas e, por sua falta, quantas não se desligam...
Quanto à conjugação, é um verbo regular, mas, na prática, amar pode ser tão irregular!
Talvez o que falte seja essa simplicidade sobre a qual você tão bem escreveu. Ou, ao invés de tanta preocupação sobre sua predicação e sobre como conjugá-lo, devamos libertá-lo desse jugo e simplesmente senti-lo, praticá-lo e vivê-lo.
Beijos.