Correm os pneus pela rua, barulhentos, trovejando no asfalto como raio em tempestade, trazendo vida às horas mais sonolentas do dia, infeliz dia, malquisto dia, este que todos odeiam, a infame folha do calendário que inicia a semana, que nos submete ao retorno da rotina, às despedidas, aos regressos. E, por que não, ao recomeço também, como se chegasse dizendo "está na hora de levar a vida a sério, mais uma vez". O céu azul me faz suspirar as memórias de alguns dias atrás, de amor e sossego, de sonhos e conquistas. Uma imensa vontade de fazer o caminho inverso, voltar para a cama, não cumprir nada do que preciso...
Os minutos se arrastam neste ponto de ônibus. Ao meu lado, uma bela moça ajeita em seu pescoço o crachá do trabalho - essa coleira horrorosa, ela diz. Todo o céu se fecha, e meus olhos continuam cansados. Como se fossem ainda selados pelo sono, flutuando no limiar entre o real e o inconsciente. É a vida, sem vida, uma contagem regressiva para a desejada sexta-feira, são horas que se arrastam, almoço ruim, café amargo, cigarro sem brisa. São horas de agonia, desde o pisar no escritório até o final da jornada. O telefone toca, o computador trava, os deveres parecem incessantes, intermináveis, esmagadores...
Minha cabeça dói, sinto saudades, fome, calor, sono.
A caminho de casa, desmaiada no ônibus, desperto entre solavancos e freadas bruscas, tropeço nos degraus ao descer. Jogo meu corpo no sofá, sem forças... Um banho, um copo d'água, uma fruta. Quem levou minha energia?
O relógio avisa que já está quase na hora de dormir, mas eu continuo trabalhando.
E, embora o dia tenha sido duro, cansativo, estressante, repleto de passagens desnecessárias, dessa vez nada importa. Faltam poucos dias para o início de um novo ciclo, repleto de segundas-feiras inéditas. E que, certamente, serão muito mais leves do que todas as outras...
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