A primeira vez que ele me beijou foi com os olhos.
Percorreu todos os detalhes do meu rosto com cuidado e paciência, desenhando os traços no ar com os dedos embriagados, sem desviar de mim aquele brilho que me cegava.
No caminho entre este retrato e o beijo, pude ver minha entrega refletida no fundo daqueles olhos tão atentos, como se eu mesma fosse uma parte deles, de tão perto, tão perto quanto se pode estar.
Dentro...
Fugi. Os olhos me acompanharam.
Eu tentei sumir, dormir, desaparecer para afastá-los, mas não teve jeito, eles me perseguiram avidamente, como que por milênios. E eu mantive as pálpebras cerradas, por capricho, no fundo desejando que aquela imagem permanecesse eternamente em minha memória.
Decidi, então, olhar para frente.
Quando nossos olhares se reencontraram, foi como se estivesse recebendo uma farta recompensa.
Por um breve momento, pude me enxergar do outro lado.
Nós dois, quase um.
E hoje tenho em mim essa vontade imensa de beijá-lo por inteiro, com tudo o que sou...
Seus olhos nos meus e todo o silêncio do amor desenhado em nossos lábios...

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