No caminho de volta para casa após um longo dia de trabalho, olhei para o outro lado da janela do ônibus e meus olhos só conseguiram enxergar o seco. Vazio, árido. Terra batida no chão, arremessada para o infinito com o rodar dos carros, ônibus, caminhões. Um asfalto avermelhado de suor e lágrimas. Era inverno, mas o calor não obedeceu as leis da natureza e se lançou no espaço para castigar as almas solitárias. Olhei todas aquelas pessoas bufando. De ódio, cansaço, tédio, dor. Onde está o mar, quando a gente precisa das ondas beijando nossos pés? O jardim da praia, aquela bela orla iluminada por cruzeiros e amores...
A brisa amiga agora se esconde por trás do concreto e dos muros que revestem esta cidade do interior. As imensas paredes que se formam entre o humano e o inanimado. Você está aí, tão perto, em pé nessa calçada de marasmo e nem consegue enxergar este ônibus repleto de possibilidades. Um, dois, vinte e sete automóveis espalhados pela pista em direção ao sossego. Falso, que se acabará amanhã, ao inciar mais uma jornada de terra, asfalto, vermelhidão árida e deserto. As ondas, distantes, afagam somente minha memória, que busca um pouco de calma no frescor marítimo. Meu semblante se transforma. duro, opaco, concreto e quebradiço. Sem a umidade vistosa do litoral... Eu só quero descansar meus pés na beira do mar, bailar em suas ondas, sentir a brisa limpa enchendo os meus pulmões, as gaivotas dançando no horizonte...
Amanhã desejo uma nova paisagem no caminho de volta. Vou sorrir e esperar que o mundo me devolva mais do que somente o meu sorriso bobo refletido no vidro do ônibus...
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